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segunda-feira, 15 de junho de 2026

ENTREVISTA: Luís Ruivo: "Queremos uma SFEM mais forte, participativa e preparada para o futuro"

 Aos 130 anos de existência, a Sociedade Filarmónica Euterpe Meiaviense continua a afirmar-se como uma das instituições mais importantes da vida cultural da Meia Via. Nesta entrevista, o presidente Luis Ruivo faz um balanço dos primeiros tempos à frente da direção, fala dos desafios atuais do associativismo, da aposta na formação musical dos mais jovens e dos projetos que pretende concretizar para garantir um futuro sólido à coletividade. 



O que significa para si ser presidente de uma banda com 130 anos de história? Porque aceitou o desafio?
Ser presidente da SFEM significa ser responsável por uma herança cultural que atravessou gerações ao longo de 130 anos. Aceitei este desafio por conhecer grande parte do funcionamento da associação, ao longo dos últimos anos estive como vogal, tesoureiro e vice presidente e por sentir que era o momento de dar resposta ao desejo dos sócios por uma nova energia. Contudo, este não é um trabalho individual, conto com uma equipa dedicada na direção que partilha comigo o mesmo foco, a união. O nosso objetivo é garantir que cada pessoa que colabora com a SFEM se sinta parte fundamental desta história, mantendo a nossa associação como um pilar cultural vivo, dinâmico e aberto a todos os sócios e população em geral.

A banda realizou o seu concerto de aniversário dos 130 anos no Teatro Virgínia. Como presidente, como foi para si esse momento?
Para mim, e para toda a estrutura da SFEM, o concerto no Teatro Virgínia foi um momento de consagração e profunda emoção. Ver aquela sala cheia para celebrar os nossos 130 anos foi a prova de que a nossa associação continua viva e presente no coração da comunidade.
Como presidente, sinto um orgulho imenso. Aquele espetáculo resultou de um esforço coletivo extraordinário, desde o talento dos nossos músicos, professores e alunos, até à liderança artística do nosso Maestro António Dias e ao trabalho incansável em tão pouco tempo do nosso Maestro do coro João Silva.
O regresso do Coral Euterpe foi planeado para reiniciarmos atividade neste espetáculo, permitindo-nos não só voltar a juntar antigos membros, mas também atrair novos membros para o nosso grupo. O Coro é hoje uma atividade vibrante que permite ter mais gente envolvida e traz mais vida SFEM. É um espaço de convívio que reforça o nosso papel social e quero sublinhar que as nossas portas estão sempre abertas para quem se queira juntar a nós.
Tudo isto só foi possível graças ao grande trabalho de toda a direção. É importante recordar que somos todos amadores e trabalhamos por amor à camisola, abdicando do nosso tempo em família para servir a SFEM. Ver o nível artístico que alcançámos no Teatro Virgínia, sendo uma casa de voluntários, tornou este aniversário ainda mais especial.

Quais são os maiores desafios que tem encontrado como presidente da SFEM?
O maior desafio é, sem dúvida, a atualização de mentalidades. Vivemos num tempo de estímulos infinitos, onde captar a atenção das pessoas exige inovação. O que funcionava no passado já não responde às exigências de hoje. Inovar não significa esquecer quem somos, mas sim criar as condições para que a SFEM continue a ser relevante.
Paralelamente, estamos a abraçar um desafio cultural com serenidade: reforçar o espírito de equipa e a partilha de responsabilidades dentro da própria Direção. Acredito numa estrutura onde cada elemento tem um papel ativo e contributos claros nas diferentes áreas, permitindo que a dinâmica de trabalho seja mais fluída e sustentável. Nem sempre esse equilíbrio é fácil de alcançar, e, por vezes, exige um esforço adicional de coordenação da minha parte, mas o objetivo é consolidar uma cultura de maior iniciativa e envolvimento coletivo, alinhada com
um projeto comum ao serviço da associação.
Sabemos que a população da Meia Via é profundamente zelosa e exigente com a sua Banda.
Esse carinho é positivo, mas faz com que, por vezes, as mudanças sejam recebidas com alguma reserva. Ainda assim, é importante sublinhar que cada decisão é sempre ponderada com cuidado, tendo em conta diferentes perspetivas e o impacto global na associação, procurando
garantir o melhor para todos e a sustentabilidade do projeto no seu todo.
Um exemplo claro é a crescente complexidade burocrática e fiscal. Hoje, organizar qualquer evento exige um labirinto de licenças, autorizações e taxas que tornam financeiramente inviáveis muitas atividades que "antigamente" eram tradição. Explicar isto aos sócios é um desafio constante: não é falta de vontade, é gestão responsável. Também vivemos tempos diferentes, com múltiplas exigências no dia a dia, o que torna mais difícil mobilizar pessoas e muitas vezes, o esforço acaba por recair sobre um grupo mais reduzido de pessoas. Para mantermos as contas equilibradas, não podemos avançar com projetos que resultem em prejuízo. Gerir com o coração é importante, mas a sustentabilidade é o que garante o nosso
futuro.
No que toca à atividade da Banda, enfrentamos diversos desafios que exigem atenção contínua, desde a necessária renovação e manutenção do instrumental, até ao cuidado e sentido de responsabilidade na utilização de instrumentos, acessórios e partituras, bem como na organização e arrumação dos espaços. É fundamental reforçar um espírito de respeito mútuo e de pertença, lembrando que todos contribuem de forma voluntária para o bom funcionamento da Banda. A acrescer a isto, existem também desafios logísticos significativos: as deslocações, quando implicam transporte contratado, tornam-se praticamente incomportáveis do ponto de vista financeiro, o que nos obriga a ponderar muito bem a aceitação de serviços mais distantes e, sempre que possível, a contar com a disponibilidade
dos transportes de diretores, músicos e familiares.
A nível pessoal, a gestão do tempo é a minha maior batalha. Como Presidente, o meu desejo era conseguir estar ainda mais presente no dia a dia da associação e promover mais espaços de partilha direta com todos os que dão vida à casa.
O objetivo final é que todos se sintam confortáveis para tomar a iniciativa e partilhar ideias ou receios. Queremos que a SFEM seja, acima de tudo, um espaço de confiança mútua e diálogo aberto.

Uma banda com tantos elementos deve ser difícil de gerir nos dias de hoje, pois sabemos que são todos músicos de coração. Tem sido fácil gerir tantos elementos? Como está atualmente a banda em termos de músicos e atividades?
Gerir pessoas é um desafio de proximidade e afeto. O foco total desta direção é a coesão, o respeito e a alegria do grupo. Assistimos com muito orgulho ao regresso de vários músicos e recebemos o apoio constante de muitos músicos “amigos da SFEM” que se juntam a nós, um sinal claro de um grupo unido, respeitoso e bastante alegre. Quero deixar um destaque especial a todos os que dão corpo à nossa banda, independentemente da idade ou da experiência. Temos a sorte de contar com os nossos músicos mais experientes, que são a nossa
pedra fundamental, são uma fonte de inspiração e contamos também com a energia dos mais jovens que estão agora a começar. Na SFEM, todos são igualmente importantes, desde quem aqui dedica a vida há décadas até a quem chega hoje com vontade de aprender. É esta mistura de gerações que nos torna únicos. Conto com cada um deles hoje e sempre, tal como conto com todos os que queiram regressar ou iniciar-se agora connosco, pois é esta união de diferentes vivências e experiências que garantem o futuro da nossa Banda. A todos os antigos
músicos, deixo também uma palavra especial: a porta estará sempre aberta,
independentemente dos motivos que, em algum momento, levaram à saída. Mais do que olhar para trás, importa valorizar o que nos une e aquilo que podemos continuar a construir juntos.
Estamos de braços abertos para receber todos os que queiram voltar a fazer parte desta casa, porque precisamos de cada contributo. Uma Banda forte e equilibrada faz-se com muitos — capaz de responder melhor às ausências, que são naturais e compreensíveis e acima de tudo, com o espírito de entreajuda que sempre nos caracterizou. O espírito de família que vivemos na banda é algo que queremos ver sempre crescer cada ver mais.

Vivemos na era das novas tecnologias e meios digitais. Sente que, apesar disso, os jovens continuam interessados em aprender música e integrar a banda? Tem sido difícil manter a escola de música ativa ou os jovens aparecem com naturalidade?
A escola de música é o pulmão de qualquer banda e claramente tem de ser vista como tal. Este ano letivo, subimos um degrau ao implementar um projeto pedagógico claro, organizado e transparente. Hoje, todos os envolvidos professores, alunos e encarregados de educação sabem exatamente qual é o seu papel e o que se espera neste caminho de aprendizagem.
Uma das peças fundamentais desta nova organização foi a criação da Banda Juvenil. Este projeto não é apenas uma atividade extra, é uma ponte essencial que permite uma integração muito mais natural, motivadora e eficaz dos novos músicos na Banda. Ao darmos esta estrutura à escola de música, estamos a garantir que o talento dos nossos jovens é potenciado num ambiente de seriedade e compromisso, facilitando o seu crescimento musical e pessoal dentro da SFEM.
Aqui, o papel dos pais é insubstituível, precisamos que eles incentivem e façam força para que os filhos venham aprender música. É um investimento no futuro deles e na formação de cidadãos mais completos através da música.

Que mensagem gostaria de deixar aos jovens para se juntarem à banda?
Diria que na SFEM vão encontrar muito mais do que música, vão encontrar amigos para a vida e uma verdadeira escola de valores. Venham experimentar, pois, as nossas portas estão sempre abertas e estamos aqui para ensinar todos os que queiram aprender, independentemente do nível de conhecimento e da idade.
É fantástico ver o entusiasmo com que os nossos alunos falam da música aos amigos e colegas de escola, e é precisamente esse espírito que faz a nossa família crescer. A criação da Banda Juvenil nasceu para dar palco a esse entusiasmo, garantindo que os nossos jovens tenham o seu próprio protagonismo e momentos de destaque. Venham fazer parte deste projeto e sintam o orgulho de pertencer a uma instituição com 130 anos que se renova a cada dia.

Sabemos que existem sempre muitos custos. O apoio das entidades públicas tem sido suficiente para manter a atividade ou considera que é preciso ainda mais apoio? 
Os apoios são fundamentais e quero destacar aqui o papel da Junta de Freguesia da Meia Via. É um parceiro de excelência, não só pelo apoio direto, mas por nos desafiar para momentos onde conseguimos dinamizar a nossa angariação de verbas. É também importante referir os apoios que recebemos por parte do Município, que é um auxílio precioso para a nossa estabilidade. No entanto, gerir uma instituição com esta longevidade e com valências tão diversas implica desafios constantes, não apenas ao nível financeiro, mas também ao nível administrativo e burocrático.
Nesse sentido, consideramos que seria uma mais-valia reforçar os mecanismos de apoio às coletividades, nomeadamente através da criação de um gabinete de apoio associativo que pudesse prestar acompanhamento em matérias administrativas, candidaturas, obrigações legais e outros procedimentos que se têm tornado cada vez mais complexos.
Da mesma forma, acreditamos que a promoção de ações de formação dirigidas aos dirigentes associativos seria uma ferramenta importante para capacitar aqueles que, na sua esmagadora maioria, desempenham estas funções de forma voluntária e amadora, conciliando-as com a sua vida profissional e pessoal. Investir na formação e no apoio aos dirigentes é também investir na sustentabilidade e na qualidade do movimento associativo do concelho.
Relativamente ao Regulamento de Utilização dos Autocarros do Município de Torres Novas, consideramos que existe margem para uma revisão e adaptação que tenha em conta as especificidades da atividade desenvolvida pelas bandas filarmónicas e restantes associações culturais. Na sua forma atual, o regulamento nem sempre permite dar uma resposta eficaz às necessidades de transporte, aos horários e à flexibilidade que muitas das nossas deslocações exigem.
Importa também salientar que, ao nível da freguesia, apesar da excelente colaboração e disponibilidade que a Junta de Freguesia tem demonstrado ao longo dos anos, os meios de transporte atualmente disponíveis não são os mais adequados para assegurar o transporte de instrumentos musicais em condições de segurança, especialmente durante os meses de inverno. A Junta dispõe apenas de uma viatura de caixa aberta, cuja utilização para este fim apresenta limitações evidentes.
Esta realidade faz com que, em diversas ocasiões, sejam os próprios músicos, dirigentes e amigos da associação a assegurar os transportes através de meios particulares, de forma a garantir a presença da banda em atuações e compromissos, incluindo alguns promovidos ou solicitados pelo próprio Município.
Acreditamos que uma maior adequação do Regulamento de Utilização dos Autocarros do Município de Torres Novas às necessidades reais das coletividades culturais constituiria um importante contributo para o fortalecimento do associativismo local, permitindo uma resposta mais eficiente às solicitações recebidas, uma maior projeção do trabalho desenvolvido e uma
representação ainda mais digna do concelho dentro e fora do seu território.
Olhamos para o futuro com vontade de colaborar ainda mais, acreditando que a Banda, o Coro e a Banda Juvenil podem ser recursos culturais cada vez mais presentes nas dinâmicas do nosso concelho.

Quais são as maiores dificuldades e necessidades da banda neste momento? O nosso foco principal neste momento é a aquisição de um novo fardamento para a banda. O atual tem já mais de 30 anos e, apesar do cuidado que temos na sua preservação, torna-se cada vez mais difícil apresentarmo-nos a 100%, com a imagem e a dignidade que a nossa instituição merece. A renovação do fardamento é, por isso, uma prioridade e um investimento essencial para o futuro da banda.
Contamos com o apoio de todos para concretizar este objetivo, em especial dos nossos sócios e meiavienses, que sempre demonstraram um enorme carinho pela nossa coletividade.
Acreditamos que este sonho está cada vez mais próximo de se tornar realidade e esperamos também poder contar com o apoio das entidades competentes para ajudar a concretizar este importante projeto.
Outra das nossas grandes necessidades são o aumento do número de sócios, que continuam a ser o suporte vital da existência da SFEM. Estamos igualmente focados na modernização dos nossos processos e na forma de trabalhar da associação, procurando uma gestão mais ágil, mais próxima e adaptada às exigências atuais.
Acreditamos que o potencial da SFEM cresce sempre que conseguimos aliar a nossa história e tradição a métodos de trabalho modernos, garantindo que a nossa coletividade continue a ser uma referência de organização, dinamismo e participação numa aldeia com cerca de 1.400 habitantes.

A população da Meia Via contínua a apoiar a banda fortemente nas suas atividades? Tem sentido esse apoio?
Sentimos sem dúvida o carinho da população, o nosso objetivo é tornar a presença da banda muito mais constante e relevante na vida de todos. Para podermos estar mais presentes nas ruas da nossa aldeia num futuro próximo, definimos uma estratégia clara: primeiro, tivemos de crescer dentro de portas. Este é um processo interno exigente, focado na organização e na valorização dos nossos músicos, maestros, professores e alunos.
Contudo, para que este crescimento se traduza em resultados visíveis, precisamos de massa crítica. É vital que os nossos sócios se aproximem e se disponham a fazer parte das futuras Direções. Só com mais 'mão de obra' e com uma estrutura reforçada conseguiremos evoluir e chegar a mais lados. Uma Direção não se faz apenas de nomes, faz-se de pessoas dispostas a trabalhar em prol de um bem comum.
Temos a plena consciência de que ainda há muito a fazer, mas este fortalecimento tanto organizacional como humano é o alicerce necessário para servirmos a Meia Via com a excelência que ela merece. Queremos que tanto os residentes de longa data como os que chegaram recentemente vejam na SFEM uma instituição próxima, moderna e que, acima de tudo, continue a ser um motivo de grande orgulho para a nossa aldeia.

Que objetivos tem a direção para os próximos anos?
O nosso grande objetivo é garantir a sustentabilidade e sobretudo, a participação ativa dos nossos sócios. Gostaria de deixar um apelo direto, a SFEM é dos sócios. Construir um projeto sólido demora anos de dedicação, mas aprendemos com as experiências de um passado ainda recente que a falta de rigor ou uma gestão menos precavida podem colocar em causa décadas de história num curto espaço de tempo.
É por isso que o nosso foco é: 
Robustez Organizacional: Trabalhamos para que a SFEM esteja sólida e preparada para imprevistos. Queremos uma estrutura que não colapse perante o desconhecido.
Participação nas Decisões: Para que este rumo se mantenha, os sócios têm de ser a parte ativa que vigia e valida o destino da casa. Esse compromisso assume-se nas Assembleias Gerais. Uma Direção só é forte se os sócios estiverem presentes para decidir o caminho connosco.
Diversificação de Atividades: Vemos também margem para crescer noutras áreas.
Estamos atentos e abertos à possibilidade de explorar outro tipo de atividades além das existentes, dependendo das oportunidades que surjam e, claro, desde que encaixem no propósito e na identidade da nossa associação.
O futuro será uma combinação entre a segurança do que já construímos e a ousadia de abraçar novos projetos, sempre com a consciência de que cada passo deve ser dado com os pés bem assentes na terra.

Como imagina a banda daqui a 10 ou 20 anos?
Imagino uma SFEM de rosto renovado, não só pelo novo fardamento, mas sobretudo pela vitalidade e pelo crescimento de toda a família que dá vida à nossa casa. Vejo uma associação que conseguiu integrar plenamente todos os que escolheram a nossa terra para viver, superando as divisões do passado através da união que a música proporciona.
Acima de tudo, imagino uma associação que se tornou uma referência de dinamismo e organização, onde a modernidade das nossas condições acompanha a excelência do nosso trabalho. Sonho com uma casa cheia, apoiada por uma população com ainda mais “amor à camisola” e um orgulho imenso na Meia Via, uma comunidade que seja, em simultâneo, paciente, realista e construtiva. Que este espírito de união continue a ser o combustível para os próximos anos da nossa história.

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